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terça-feira, 27 de setembro de 2005

De desaparições e de ruínas (Nilto Maciel)



Quando os dragões sumiram
por trás dos montes,
eu me quedei,
olhos fitos nos horizontes empardecidos.
Anoiteceu e ainda pude ver
suas sombras se diluindo,
e, com elas, toda a coorte do castelo:
princesas, fadas, bruxas e duendes.
Incontinenti, ruíram as muralhas
e um pó sem cor se fez no ar,
feito nuvens de tempestade.
Busquei sonhar.
No entanto, o leito não me comportou
e eu me senti tão só
que a noite nunca teve fim.
Tudo desapareceu,
tudo ruiu:
ruas e casas que habitei
e com elas meus passeios;
cadernos de caligrafia
e com eles meus rabiscos;
verbos no pretérito
e com eles o presente e o futuro;
bares onde me inebriei
e com eles meus devaneios;
amigos e seus ais
e com eles a sede de dizer;
amadas e seus olhos
e com elas a fantasia;
meus irmãos e suas vozes
e com eles os motivos de lutar;
meu pai e minha mãe
e com eles o sentido de viver.


Tudo desapareceu,
tudo ruiu,
até que o próprio Deus sumiu.
E então tudo o que fora sólido
se espedaçou;
tudo o que fora festa
se estiolou;
tudo o que fora enigma
se elucidou;
tudo o que fora nobre
se banalizou;
tudo o que fora belo
se embaçou;
tudo o que fora doce
se amargurou;
tudo o que fora sacro
se aviltou;
tudo o que fora eterno
se findou;
tudo o que fora vida
em morte se tornou;
tudo o que fora meu
roubou-me o tempo
e eu afundei num poço
em que não creio.

(9.8.97)
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