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sábado, 17 de setembro de 2005

O conto – uma prática do caos? (Tércia Montenegro*)


Uma recente publicação (Caos Portátil – um almanaque de contos) enseja, a partir do Ceará, certo questionamento sobre as fronteiras dos gêneros – debate que, apesar de envelhecido, continua produtivo. Não que se pretenda, com isso, nada além da saudável provocação de idéias, que geralmente motiva a criatividade. Assim, sem pensar em conceitos firmados ou arcaísmos sobre o bem escrever, entramos em contato com o que se faz contemporaneamente em narrativas breves.

A citada coletânea reúne textos de autores já bastante conhecidos ao lado da produção de escritores inéditos em livro. No primeiro caso, temos o exemplo de Caio Porfírio Carneiro, que, no poder de síntese do conto “Ele”, estabelece um ritmo que sutilmente avança em narrativa, sugerindo mais do que explicitando. Nilto Maciel, nessa mesma linha dos veteranos, apresenta sua boa prosa de “Paisagem celeste”, que traz uma linguagem sóbria, mas surpreendente pelo final brusco e criativo. Airton Monte também é facilmente reconhecido em “O guitarrista espanhol” por seus intertextos característicos e por uma prosa que muda do lírico para o escatológico vertiginosamente. Pedro Salgueiro mantém seu estilo sucinto, mas, em “Mecanismo”, apela para um descritivismo mais minucioso e cinematográfico. Este mesmo aspecto é desenvolvido por Rodrigo Marques, jovem autor que, em “O Quarto”, constrói uma perspectiva envolvente, que inclui o leitor e de fato impressiona.

Outros bons autores podem ser lidos com a grata sensação de reencontrarmos temas e linguagens que os caracterizam. Assim acontece com Cândido Rolim, em seu texto curto e monolítico como uma inscrição tumular, mas profundo em ironia. Assim com Jorge Pieiro, no seu clima de pesadelo e angústia concentrada; com o “flash” de Dimas Carvalho, que é como uma rápida facada; com o surreal e mítico de Joan Edesson. Carlos Emílio Corrêa Lima também se mantém fiel à sua prosa inclassificável, aos lampejos de um ritmo que não se pode comentar, mas apenas sentir, como em: “Vê, longe? Na altura, no oriente da vidraça? Fecham as praças. Zonas interditas. Áreas segregadas de chuvas demoradas. Ele passa. Eis que habita. Sabe-se que: movem-se as louças, para as carruagens seguirem os rastros de outras carruagens. Estamos quase nos exaurindo seguindo suas marcas.”

Os escritores inéditos em livro surpreendem pela qualidade dos contos. É de se ressaltar o movimento tenso do “Pedrada”, de Luís Marcus da Silva, e a excelente história de Carmélia Aragão, assim como o texto de Diana Melo, que, de tão bom, merecia ser mais extenso, para dar uma vivência maior às personagens. Carlos Nóbrega, talentosíssimo no verso, não faz feio na prosa, recuperando, em alguns momentos do seu conto sobre desalento e solidão, a poeticidade que é seu forte. Seria necessário ainda destacar Júlio Lira, com seu lirismo (o que não é um trocadilho, mas uma presença de estilo) e os inventivos contos de Aldir Brasil Jr., Luciano Bonfim e Inez Figueredo.

Algumas histórias se destacam pela fronteira-limite com o gênero conto, a começar com Nuno Gonçalves, outro ótimo escritor, que assume um tom maravilhoso em sua narrativa. Pedro Henrique Saraiva Leão constrói um texto quase anedótico pelo regionalismo lingüístico, mas trágico pelo final. Sérgio Telles dá prioridade à descrição, em seu “Mesa”, quase se abstendo da narratividade. Ruy Vasconcelos tem seu texto disposto na forma de versos, e o conto do excelente Ronaldo Correia de Brito pode muito bem ser lido como um roteiro teatral, com o discurso direto assumindo a função de apresentar as personagens e expor seu passado, e a voz do narrador se apresentando como instrução de cena, à semelhança de didascálias.

Com tantos exemplos diversos de ficções que se tecem atualmente, Caos Portátil é um veículo de extrema valia não apenas para a divulgação literária, mas para a reflexão sobre as formas de (des)fazer histórias e incursionar por gêneros. Com título inspirado por texto de Cortázar e concepção gráfica adequada ao sentimento de múltiplas tendências que se unem num volume que agrada a todos os gostos, esta publicação confirma a fertilidade das letras cearenses. Esperamos, porém, que não se restrinja a este círculo, que tenha outras muitas edições, com espaço inclusive para autores de diversos lugares, para que se intensifique o diálogo cada vez mais intenso com esse espaço do caos que, afinal, é o espaço típico da criação.
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*Autora dos livros de contos O Vendedor de Judas (2a ed., Fortaleza: Demócrito Rocha), Linha Férrea (São Paulo: Lemos Editorial) e O resto de teu corpo no aquário (Fortaleza: Secult). E-mail: tercialemos@yahoo.com.br

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