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segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Detalhes interessantes da vida de Umzim (Nilto Maciel)


PARTIDA/INTRÓITO
Um chorinho ecoou na tapera de Zeferino, erguida durante a entressafra passada num serrote do Candeia. A cabana toda estremeceu – do alicerce ao teto de palha de coqueiro. Era um serzinho raquítico, quase ninguém, deitado numa fianga. Sentia fome, calor, amargura, como nos duzentos e tantos dias anteriores não sentira. Vontade quase danada de regressar. E, não fossem o sangue materno e as mãos nodosas da velha cachimbeira, voltaria ao útero. Tudo um caos, só comparável ao existir doravante e ao morrer dali a tantas léguas.

QUASE REGRESSO

Doeu-lhe feroz nas entranhas uma diarréia dos diabos e abateu-se-lhe sobre os pouquinhos quilos uma febre ardorosa, quase mortal. Um sofrer semelhante ao nascer, se a tanto ousa alcançar a medida humana.

NOITE DE NATAL
Rezaram velhas rezas as desdentadas bocas dos pais. Na igrejola de pau-a-pique, uns cânticos medievais mostraram-lhe um arremedo da Beleza criada por homens de muito saber e profundo sentir nos mosteiros distantes. Um antigo presépio de gesso imitou os mil e novecentos e um anos do deus dos pobres ocidentais. E foi tão grande a alegria de todos, que dele esqueceram o primeiro mês.

TU ÉS CHIQUIM
O pai borrifou-lhe a carapinha nascedoura com respingos de cachaça, chamando-o Chiquim. Mas só depois, muito depois, quando Seu Gabriel prometeu mundos e fundos aos seus moradores, o menino se fez Francisco do Nascimento Silva.

PRIMEIRO 25 DE NOVEMBRO
Impossível esquecer-lhe o primeiro aninho. E sua mãe, então mãe novamente, sorriu e chorou, cantou e falou. Seu Chiquinho o primeiro embate gregoriano vencera. O pai sorriu e falou, bebeu e cuspiu, comeu e dormiu, arou e pensou, sofreu e gozou.

APELIDO
Umas datas passadas, Francisco resmungou qualquer “um” ou “un”, “hum” ou “hun”. Destarte, principiou a longa caminhada pela difícil estrada da língua materna e paterna. E assim seus pais gracejaram, que ainda era tempo de graça fazer, e o chamaram de Seu Umzim. A vizinhança e, especialmente, a garotada gostaram do apelido deveras fácil de pronunciamento, deveras lido na boca de todos.

CRESCIMENTO
Tanto “um” ou “un” Chiquim pronunciou, que não mais esquecer podia o estreito mundo do Candeia o nome fácil do primeiro filho de Zeferino. E Umzim trepava mangueiras, nadava riachos, devorava bananas. E ainda ajudava o pai no labor contínuo de lavrar as terras de Seu Gabriel. Nem esquecia de sempre resmungar: um-hum-un-hun.

BANHO FATAL
E como acontece fatalmente, quer haja sol, quer haja lua, um dia Umzim virou, sem quê nem praquê, os olhos pretinhos pro corpo banhado de Joaquina franzina. Seu mínimo dedinho se fez rijo demais, num instante. E a mão já calosa foi pra lá e pra cá, pra lá e pra cá.

FATAL DE NOVO
E como também sempre acontece, quer seja Zeferino, quer seja Estaline, um dia o pai de Umzim foi conduzido debaixo de vara pro fundo da terra que tanto lavrara. Deixava chorosa sua gasta mulher e sem porra nenhuma uma penca de filhos, de doze a um anos.

PANELADA E AMOR
Luto passado, Umzim resolveu dar uma de macho e foi à cidade comer panelada. Ou então se lembrou da conversa de dois seus bons companheiros e, pé ante pé, buscou o retiro das mulheres da vida. Queria provar o sabor do amor e testar seu calor de noivo de Rita, bonita morena das bandas de lá do Riacho da Pedra.

DIVERSÃO NO TERREIRO
Dez anos depois, esquecido do amor das mulheres da vida, nasceu-lhe o décimo de uma série de filhos. Finados já seis, os quatro restantes se divertiam com minúsculas bolinhas, semelhantes a grãos de café. No terreiro, magros cabritos soltavam brinquedos para os filhos de Umzim.

FUGA
Quando, por ordem estranha, foram queimados os cafezais, Umzim decidiu tomar o rumo da cidade, onde se comia pão e se estendia a mão. E foi pedir a proteção de Deus Nosso Senhor e do Doutor Comendador.

APENAS UM
De tanto pedir, não morreu Umzim, nem também Siá Rita. Mas de disenteria um dos moleques se enterrou no velho campo-santo.

NOVA VIDA (?)
Secos os rios, secaram as bocas. E, como fosse muita a sede e bem maior a fome, Umzim, mulher e filhos juntaram os trapos e pegaram o trem. Nova vida na capital.

BOLINHO DE ARROZ
O trem parou, o sol se escondeu e uma lata de lixo se aproximou. Dentro, bem dentro, Umzim encontrou um belo e apetitoso bolinho de arroz. Dividido em cinco iguais pedaços, o bolinho desapareceu magicamente.

PRIMEIRO DE ABRIL
Numa casa modesta de uma rua comum, Umzim bateu palmas e pediu esmola-pelo-amor-de-deus. Antes, porém, de dizerem “perdoe” ou “espere um pouquinho”, um carro parou às costas de Umzim. Dele saltaram fortes rapazes, entraram na casa da esmola esperada e dela um jovem arrastaram. “Comunista safado”. Umzim, mui medroso, fugiu, sorrateiro.

A CIDADE COMEU ROSINHA
Sob a marquise do Cine Diogo faltava Rosinha, levada pra longe ou pra perto ou pra onde a boca do mundo mais gulosa estivesse. Mas Umzim não chorou. Nem chorou Siá Rita.

LAR, DOCE LAR
Um dia, já tonto de tanto rodar, Umzim descobriu uma ponte sem rio. E debaixo erigiu, cantando um xote animado, seu lar mais perfeito, porque de concreto bem feito. Logo, porém, outros tantos e tontos por lá se abrigaram.

TRAGÉDIAS
Em noite sem lua, num monte de cinzas e brasas, queimou-se o filho mais novo de Umzim. E do hospital não voltou. Outra noite de lua, Siá Rita dormiu com outro pedinte.

DORMIDA FINAL
Ontem, só ontem, Umzim quis dormir num banco qualquer de uma praça. Antes tentou o coreto da mesma, repleto de fezes e outros fedores. E dormiu noite adentro. Hoje um jornal, sem manchete e sem cruz, num canto de página, estampou sua foto de mendigo morrido. De fome ou de frio? Ferido de amor ou de dor muito longa?
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