Pesquisar este blog

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Mais seis romancistas (Nilto Maciel)


Em Mariela Morta, de Adelto Gonçalves, os personagens vivem num ambiente triste, sombrio e frio como o dos calabouços, repletos de velhice, solidão e loucura. É a vida de todos nós vista pelo ângulo mais horroroso. Atolados no passado, sem perspectiva nenhuma de futuro. Mesmo num conto aparentemente “político”, como “Atentados em Buenos Aires”, o que vem à tona é toda uma carga de solidão, abandono e loucura do personagem – espremido entre a insignificância de nunca ter sido preso (atestado de vida ativa de todo revolucionário) e a necessidade vital de afirmação. Todos os personagens do livro vivem num mundo de trevas – as incríveis e indescritíveis loucuras dos seres reais. Sim, porque somente os “destinados” à criação podem descrever as loucuras. Recriá-las. Porque a loucura de um Agamemnon Gentil é justamente a de seus criadores. A loucura de criar. De criar marielas mortas. Que é como criar adões de barro, dar-lhes vida e, depois, num supremo ato indecifrável e só descritível em livros perenes como a Bíblia, de uma costela sua realizar uma Eva.

Em suma: ao não aceitarem os ditames da sociedade de consumo ou ao não poderem desfrutar o prazer que esta sociedade oferece, as pessoas se marginalizam, se desesperam, se degradam e vão cair no lodo e depois numa vala comum, onde os vermes as vão destruir. Estão todos de corações despedaçados, horrivelmente infelizes, apesar da atordoante apregoação de que tudo vai bem. E vai, exceto para a grande maioria que, por isso ou por aquilo, não encontrou o delicioso caminho da felicidade. Uma felicidade frágil quase desmorona a cada minuto nas ruas e estradas, ensangüentadas pelos acidentes de trânsito. A utopia pregada pelos donos de tudo.

Uma história é uma história? Não importa a resposta ao se falar do insólito livro de Jarbas Valadares Rodrigues, intitulado O Estranho, porque ele mesmo não o qualifica de romance ou simplesmente história. Lembra-nos a Bíblia, repleta de contos, crônicas, escrituras. O Estranho não é um conjunto de contos ou crônicas. Talvez um conjunto de escrituras. E por que não de provérbios, tal como os ensinamentos de Salomão, mesmo porque o autor fez de um desses provérbios a dedicatória do livro? No entanto, os provérbios de Jarbas se vestem de roupagem avessa à dos provérbios do filho de Davi, para quem “os loucos desprezam a sabedoria e o ensino”, entendendo-se por sabedoria a razão institucionalizada. Ora, os loucos são sábios e ensinam mil vezes mais do que os são e os ludimagisteres, como o Homem das Latas desta estranha história, quando confessa: “me dizem que sou louco/ só porque vejo nos matizes do arrebol/ pequeninos fetos que dos vidros de formol/ me recitam versos dos quais sei bem pouco”. O Estranho é, pois, um livro de sabedoria e ensino.

O Rio da Noite Verde, de Eulício Farias, é o monólogo interior de um jovem também perdido, mas agora em si mesmo, porque vagando dentro de recordações, de medos, perseguido por fantasmas que o ameaçam de castração, fantasmas incestuosos, malignos. Perdido não no meio da selva, mas num ponto, num porto-seguro do deserto, do sertão – a casa de seus tios.

O Menino que veio do Mar, de Luiz Paiva de Castro, não pode deixar de ser tomado como um paliativo para as nossas dores adultas e também como um ensinamento. Este pequeno romance (são apenas 50 páginas) nada deixa a dever aos grandes romances, se se levar em consideração a simplicidade que o informa e o torna belo. Simplicidade formal, parágrafos curtos, linguagem acessível a todos os alfabetizados, presença dos tradicionais diálogos e a própria narrativa linear fazem da história de Luiz Paiva de Castro uma obra interessante e original. Tem animais como personagens, embora secundários. A serpente, cujo mito (bíblico) é redescoberto e recontado, aparece distanciada da simbologia do mal. No entanto, o personagem principal é o menino que nasceu numa concha, dentro de um barco, no mar, e que, já no país dos pássaros, no país do azul, veio a se chamar de Suikirana.

O menino – símbolo da beleza, da bondade, da infância, da humanidade em conluio com a natureza – desejou conhecer o mundo fora das águas. Em companhia da serpente, guiados pela lâmpada – a sabedoria – conheceram o mundo dos pássaros, dos bichos, os campos e as cidades, o andarilho e, numa viagem ao presente, às crises agudas da humanidade, conheceram o rei do petróleo.

Cordão de Prata, de Manoel Lobato, tem pouco mais de 40 páginas, em tipo grande. Entretanto, parece-me ter lido algo assim como Os Irmãos Karamazov, tão impressionado me deixou a leitura dessa pequena jóia literária.

O livro é a história de Pagulogo, misto de mendigo e louco, que não conseguia exprimir nada além de um “é”, quer para negar, quer para afirmar. Não roubava, não pedia, não comia quase. Alimentava-se de álcool. Aguardente, enquanto assim acharam por bem os donos dos bares. Depois apenas álcool misturado a água, presente diário de seu protetor, o farmacêutico.

Para contar a história de Pagulogo, o narrador necessita também contar um pouco da vida de Helena, a menina vadia que um dia vira afilhada de D. Cátia, a dona do restaurante junto à farmácia. Em conseqüência, D. Cátia tem também sua vez na narrativa, embora em menor grau. E, por último, aparece o sargento Ventura, o algoz de Pagulogo, aquele que lhe cegou um olho num dia de maior violência.

Cordão de Prata é dividido em 18 pequenos capítulos. O narrador é homem de conhecimentos livrescos mais ou menos variados, como latim e grego, além de farmacologia. Apesar disso, a linguagem é acessível até para o leitor estreante, quer pela sintaxe, quer pelo vocabulário. Isto não quer dizer que o leitor mais calejado não vá degustar o livro também. São cinco personagens, no máximo: o narrador inominado, Pagulogo, Helena, D. Cátia e o sargento Ventura. O narrador é um farmacêutico solteirão, em perpétua guerra interior: bate nas crianças abandonadas e depois resolve proteger uma delas, Helena, pensa em matar Pagulogo, e termina dando-lhe um banho.

Em 85 páginas de muita emoção, suspense, ação, Enchente Negra, de Jair Vitória, tem enredo simples: dois peixinhos apaixonados vêem seu amor correr perigo por obra de um dom-juan, enquanto suas próprias vidas e de todos os habitantes do rio onde nasceram e vivem são ameaçados por misterioso inimigo.

A grande virtude de Jair Vitória está, porém, em saber conduzir a narrativa num mesmo diapasão de suspense até o seu final, sem privilegiar nenhum dos temas. História de amor e tragédia. Amor de duas criaturas, tragédia para milhares de seres vivos.

Fosse apenas mais uma história de amor, mesmo entre peixes, e a narrativa não teria, talvez, a menor importância. Sobretudo porque o clássico triângulo amoroso, se não tratado sob novas formas, se apresentado com técnicas tradicionais de narrar, pode se assemelhar a novela de televisão.

Enchente Negra é uma denúncia oportuna à ação daqueles que envenenam a natureza, causando morte e destruição. Não há, todavia, qualquer frase incendiária em todo o livro. A linguagem, de tão serena, pode até parecer metafórica, porque até mesmo o narrador se restringe a falar de misteriosas nódoas negras, de um veneno que flutua nas águas, vinda da parte de cima de uma cachoeira.

Jair Vitória demonstra conhecer a fundo a vida no campo, os rios e seus habitantes. E é verdade, pois nasceu e viveu durante algum tempo numa fazenda do Triângulo Mineiro. Demonstra também estar consciente de problemas graves de nosso tempo, como a poluição. Por isso, Enchente Negra é livro para ser lido e discutido, sobretudo nas escolas, embora não devamos cair na asneirice de deixar de lado as obras clássicas e adotar apenas as obras de uma literatura nova, engajada, de denúncia. O divisor de águas não deve ser este, mas o da qualidade literária.
/////