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sábado, 1 de outubro de 2005

Vanguardismo (Nilto Maciel)



Minha função principal
é tombar cercas e muros,
a cerca semi-feudal,
o muro e seus futuros.

É espantar os mil bois
da fazenda do barão
e a vaca da baronesa
que rumina, mina, mina.

É quebrar daqueles dois
a canela e o bastão,
daquela dupla coesa
que em sentinela se fina.

Casa-grande desfazer
e me acoitar na senzala.
O inimigo receber
a peixeirada e a bala.

Queimar o canavial
do latifúndio sem fim,
a palha industrial,
a pinga e o alfenim.

É correr atrás do rapa
que persegue o camelô,
riscar inteiro do mapa
o mercantil borderô.

É chamar o brigadeiro
para um duelo de cão
e afugentar o romeiro
do Padre Ciço Romão.

É vender gato por lebre
ao ministro dos franceses,
é chupar manga com febre
no banquete dos ingleses.

É pisar no véu da noiva
na hora do casamento,
cortar a golpe de goiva
a banana do sargento.

Cuspir no prato onde como
no jantar do meu patrão,
e mostrar como é que domo
a fera do capitão.

É tocar piano em samba
e cuíca na sinfônica,
é dançar com pé de zamba
na festa da filarmônica.

É desvendar o mistério
da santíssima trindade,
tirar da cama da grade
o sonho do adultério.

É beber da virgem sangue
na noite de São João,
buscar no fundo do mangue
o siri da refeição.

É combater este mofo
que sobe pela parede,
repartir o bolo fofo
deitado na branca rede.

Tirar o cetro do rei
e fundi-lo num espetão
e cravá-lo como eu sei
no peito de Deus, do Cão.
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