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sábado, 1 de outubro de 2005

W. J. Solha: A lucidez possível (Nilto Maciel)



Como diz ou quis dizer W. J. Solha, A Canga é uma “estória” desesperada, delirante e aflita. E tudo isso em pouco mais de setenta páginas, nas quais um verdadeiro remoinho de ações leva o leitor a um universo conflituoso difícil de ser imaginado como real. Isso levou certo crítico a ver no livro nada mais do que um amontoado de personagens engalfinhados do começo ao fim. No entanto, a estória é uma síntese daquele universo de desespero que é o Nordeste brasileiro, onde os conflitos sociais emergem de um mínimo gesto.

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A história de W. J. Solha é um todo de violências desde as primeiras linhas, quando espoucam foguetões lançados pelas tropas que vão tomar a suposta mina de cobre das mãos do governo “comunista”. Daí por diante até a última página, quando a derradeira vítima é fulminada, não é fácil contar as cenas de brutalidade. Entenda-se, contudo, tudo isso como uma metáfora da violência naquela região outrora varrida ora por cangaceiros, ora por jagunços a serviço dos clãs mais poderosos. Ou como a síntese dessa mesma História, a partir do surgimento dos bandos que se entregavam à violência como forma desesperada de luta contra o sistema. Talvez por isso, o crítico superficial não tenha visto em A Canga mais do que uma história tumultuada, com a presença de personagens e heróis os mais variados no tempo e no espaço, desde Gauthier-Sans-Avoir até Frei Damião.

A bem da verdade ficcional do romancista, é necessário posicionar os vários personagens ou grupos que movimentam a história. Vemos primeiro Ascenço Teixeira e sua gente: Zé, seu filho parricida; Cipriano; Sinhá Nana e Zefa. É o grupo familiar, de onde emergirá o herói do romance. A seguir, temos o bando do Padre Capistrano Simão, o condestável-jagunço Miguel Maria e a donzela morena Cila, representando a parte eclesiástica dos revoltosos. O deputado Doutor Floro do Campo-Maior é a encarnação política do movimento que se propunha “livrar São José da Micaela das garras do monstruoso comunismo que o Presidente da República” queria impor ao povo. Levantava-se este grupo em guerra santa contra os mouros do sertão. Para tanto, trazia consigo um gringo louro, para filmar tudo, cientes os chefes do bando da certeza da vitória, tal como os cristãos europeus noutros tempos: levavam cronistas e escrivães para documentarem a História. Ainda assim, no meio da luta a diáspora seria inevitável. Cada facção sonhava trazer os louros da vitória. Que não aconteceu.

O terceiro grupo, o dos “comunistas” ou “mouros", é representado ou composto (porque tudo não passava de mentira) pelos irmãos Frei Martinho ou Fradinho e Engenheiro. Na verdade, nem frade nem engenheiro. Apenas filhos do coronel Fenelon Marques, assassinado, noutro tempo, pelo mesmo grupo do Padre e do Deputado, quando então contavam com as armas do cangaceiro Justino. Este, mudando de casaca, virou “capitão com patente de mentira” às ordens do Engenheiro.

É perfeitamente clara a alusão a personagens da História das lutas sociais ocorridas no Nordeste. Também Padre Cícero e o Deputado Floro Bartolomeu comandavam jagunços, e Lampião foi condecorado capitão pelo governo, para combater a Coluna Prestes. No romance, os papéis se invertem e o tempo é outro. A tragédia é encenada na Paraíba, num tempo mais recente.

A Canga é assentada sobre um arcabouço de mentiras. Assim, a mina de cobre não existe e todos caem no logro, de que resulta uma guerra fratricida. No final, a própria guerra não passa também de uma metáfora – a do poder.

Zé, nome do povo ou nome coletivo, é outra metáfora – a do povo. Troca a canga que lhe impunha o pai (símbolo da família, do clã, do primeiro agrupamento), a quem mata, iniciando-se na violência, pelo cangaço. Primeiro a serviço dos revoltosos cristãos, dos poderosos, que dele se utilizam, como outros quiseram se utilizar de Lampião. No decorrer da luta, Zé (o povo) adquire a lucidez – uma “lucidez dos infernos”, de que jamais iria se livrar, e, desesperado, perdido no torvelinho das mentiras manipuladas, volta-se contra todos. É a “cacetada na cabeça de todo mudo”, como confessa Solha, ao se referir à sua “estória”.

O livro está para o romancista assim como a luta, a loucura, o desespero estão para Zé, o povo. Desejoso de escrever uma obra forte, para tudo levar de arrasto (ou de roldão, como dizem o povo e seus menestréis do cancioneiro popular nordestino), Solha manifestou literariamente o desespero, a loucura e a luta de Zé, povo. Ou sua lucidez possível, difícil de ser conceituada. Ou entendida pelos poderosos e seus apaniguados, eternamente deitados em berço esplêndido e de olhos vendados para a mentira que levou os Zés ao cangaço – no passado – e leva ao crime comum – hoje.
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