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quarta-feira, 2 de novembro de 2005

As pequenas testemunhas (Nilto Maciel)


Ela nunca se atrasava e sempre saía depois de nós. Cheguei a pensar que ela morasse lá. Ou fosse a dona do prédio. Não podíamos deixar a sala de aula sem a sua permissão. E muito menos passear pelos arredores da escola. Durante o recreio, ficávamos nas imediações das salas, passeando pelo corredor estreito ou olhando para o mato. Uma ou outra árvore apenas. Onde estivéssemos, víamos o campo em toda a sua extensão. Parecia não haver outro prédio além do nosso. Assim, tínhamos ânsia de conhecer aquilo tudo. Embora não tivéssemos esperança de encontrar nada de bonito ou interessante. Queríamos saber, porém, para onde eram levados aqueles homens que diariamente passavam diante da escola, em direção ao campo. Iam cabisbaixos e tristes, algemados, cercados de soldados armados. Nos primeiros dias perguntamos à professora quem eram aqueles homens e para onde iam. Ela permanecia calada por alguns minutos, como sede nada soubesse. Depois respondia: "São inimigos da Pátria e estão presos". A resposta não nos parecia clara. Queríamos saber então o significado de “inimigos da Pátria.” Finalmente ela se zangou. Não queria mais ouvir uma só pergunta sobre aqueles homens. Diante disso, passamos a procurar em nós mesmas respostas às nossas perguntas. "São ladrões", diziam umas. "Mataram criancinhas", diziam outras. Chegamos a trocar insultos, tal a vontade de parecermos as mais sabidas, cada uma se dizendo a dona da verdade. Resolvemos então procurar de novo a professora. Mais uma vez ela se zangou. Insistimos, insistimos. Afinal, respondeu: "Quiseram derrubar nosso governo." Ficamos ainda mais insatisfeitas. Ora, não sabíamos o que era governo, nem onde estava, para poder ser derrubado.

No recreio, voltamos a discutir: "O governo é aquele prédio alto da Rua Marechal Deodoro, onde os soldados moram", dizia uma. "São as ruas, as fábricas, os carros pretos e os prédios altos", dizia outra. "Mas como é que os inimigos vão derrubar as ruas?" Perdíamos nosso tempo de recreio nessa discussão sem fim. Quando aqueles homens tristes passavam por nós, ficávamos também tristes, e perguntávamos a nós mesmas para onde iriam eles. Minutos depois ouvíamos estampidos e nos assustávamos. "O que foi isso?" A professora se irritava: "Vocês estão aqui para estudar e não para se preocupar com os treinamentos dos soldados."

Um dia, algumas de nós chegamos antes dela. Com pressa, poderíamos descobrir tudo. Bastava seguirmos a mesma trilha diariamente percorrida pelos soldados e presos. Alegres, corremos, livrando-nos dos espinhos e das pedras. Adiante, olhamos para trás e não mais vimos o prédio da escola. As mais medrosas quiseram voltar. A maioria, no entanto, insistiu na caminhada. Devíamos descobrir para onde eram levados os "inimigos da Pátria". Quando menos esperávamos, ouvimos tiros. Quisemos correr, assustadas feito passarinhos. Tremíamos de medo. Algumas se puseram a chorar: "Eles vão nos matar". Resolvemos, as mais afoitas, dar alguns passos em direção ao local onde deveriam ter sido dados os tiros. Então vimos alguns soldados de armas na mão, a olhar para dois homens. Com certeza, "inimigos da Pátria". Pareciam com aqueles que diariamente passavam diante da escola, tristes, cabisbaixos, ensangüentados. Apavoradas, voltamos correndo. Cansadas, sem fôlego, contamos nossa aventura para as outras meninas e a professora: Furiosa e nervosa, feito uma louca, pôs-se a gritar: “É tudo mentira; vocês não viram nada disso; aqui ninguém mata ninguém.”

Dias depois, nossa escola foi cercada por um muro muito alto. Mesmo assim, continuamos a ouvir estampidos.

(30 de maio de 1977)

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