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segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Homens (Nilto Maciel)


 

— Isso se deu nos tempos antigos, muito antes de Lampião, muito antes do Imperador, muito antes da seca dos três sete. O dito coronel tinha uma data de terra ali pros lados do Mulungu e já estava meio velho, aí pela casa dos noventa. Pra lhe dizer como ele era rico basta citar as preciosidades que tinha em casa: um baú cheinho de pedras, sete papagaios que falavam francês, seis filhas donzelas que conservava debaixo de sete chaves para casar só com príncipes loiros, e uma porção de coisas outras de valor. Mas porém isso não vem ao caso. A lenda conta é que esse tal sesmeiro, depois que virou o cabo-da-boa-esperança, passou a frequentar as autoridades da província e das vilas: juizes, procuradores, alcaides, tabeliães, escrivães, vereadores, tesoureiros, vigários, militares...

À pequena distância do homem que falava e de outro, que estavam sentados em cadeiras de balanço, um defronte para o outro, uma criança, sentada no chão, tentava acionar o pinguelo de um revólver de plástico. Ao conseguir firmar numa mão o brinquedo, regozijou-se, rodopiou com a bunda assentada no chão de cimento liso e fez menção de atingir primeiro o homem que falava e em seguida o outro, gritando pô-pô-pô, seguidamente, durante quase um minuto. Os homens, entretanto, nem se assustaram nem demonstraram sequer ter percebido a presença do traquino, continuando um a falar, outro a olhar atentamente para uma figura que segurava firmemente com as mãos e que apresentava um soldado montado num cavalo, ambos de perfil. O militar era novo, trajava fardamento antigo e trazia a tiracolo uma espada longa. O animal era baio, muito grande e bonito e parecia cansado.

Sem dar ouvidos à desatenção do homem da figura, o que falava incessantemente dizia que o fazendeiro procurou então o vigário da freguesia, que se encontrava escrevendo uma carta para o vigário da Vila de Aquiraz, e passaram a conversar sobre terras, política e safadezas, até que o ricaço soltou uma frase curta mas que fez o reverendo trancar a cara. A tal frase dizia mais ou menos isto: Este jucá deve ser lá bem possante.

A criança, nesse momento, já de novo de costas para os dois, olhava para o alto da parede, de onde pendia um crucifixo de madeira de cerca de meio metro, ornamentado por um Cristo de prata, possivelmente. Para melhor se equilibrar, pôs as mãos para trás e esticou as canelas, encostando os pés sujos na parede azul.

O homem que falava dizia que o sesmeiro aproximou-se da estrebaria, onde cerca de vinte cavalos assediavam cerca de outro tanto de poldras, e pôs-se a olhar nervoso para a cena. Em seguida, chamou um dos cavalos pelo nome – Mimoso –, que se abeirou da cerca excitado e ergueu as patas, mostrando ao dono o maravilhoso membro enrijecido.

Por seu turno, o homem calado olhava uma segunda figura, do mesmo tamanho da anterior e figurativamente tão perfeita que tanto poderia ser uma fotografia quanto um desenho célebre. No entanto, estava desbotada e apenas dava a perceber um padre ajoelhado diante de uma imagem, possivelmente da Virgem Maria. Movimentando apenas as mãos, como que para não fazer ranger a cadeira, aproximou dos olhos a figura, mais exatamente o ângulo superior direito, onde estava fotografada ou desenhada a santa mãe de Deus, se era esta o que representava a imagem figurada.

Ainda totalmente alheia ao que dizia o homem, que falava quase gritando, como se o outro fosse surdo, a criança agora estava no outro extremo da sala, escanchada em uma sela encostada à parede, como se galopasse um cavalo. A sela rangia e a criança batia os pés no chão, imitando patas de cavalo, ao mesmo tempo que incitava o animal a trotar, fazendo com os lábios um ruído engraçado.

Infenso à zoada que fazia a criança, o homem dizia agora que o barão chamou um índio da Vila para irem ao rio e o índio mostrou-se esquivo. O velho sesmeiro trazia na algibeira um pão e, sorrindo, ofereceu-o ao selvagem. Seguiram em direção ao riacho, o barão apontando acolá, o índio dizendo dehêtsi (*), o branco afirmando perto, o vermelho perguntando dedé?, o civilizado tirando a roupa, o selvagem falando croné.

Já chovia quando o homem que nada falava olhou para uma terceira figura, a criança pôs-se a agitar nas mãos uma espécie de brinquedo bizarro e o outro continuou sua história, então dizendo que já era noite escura e chuvosa quando o fazendeiro, como último recurso, dirigiu-se à capela de taipa que se erguia num extremo da vila. Um clarão alumiou toda a sala e o homem viu perfeitamente que na foto ou desenho apareciam duas figuras de gente, enquanto a criança fazia grande algazarra, como se com medo ou alegria, e o outro dizia que o velho saiu correndo em meio aos trovões e ao ladrar dos cães vadios que o não reconheciam. A porta se escancarou à força da ventania e um frio de arrepiar penetrou na sala com fúria. A estampa quase voa da mão do homem, quando ele constatava que uma das figuras apresentava uma cara de incontida ira, enquanto na do outro um pavor de morte próxima reluzia. A criança, ou por temor à tempestade ou por se ver tomada de algum transe peculiar ao ritual que ensaiava, parecia dançar ou pular entre os dois homens, sem com eles se importar, como se não existissem ou não estivessem presentes. Um dos homens dizia que o velho alcançou a capela e divisou, a um relâmpago, as várias imagens sobre altares e mesinhas, inclusive a de um Menino Jesus deitado sobre palhas numa estrebaria. O vento continuou a açoitar as portas, a balançar as cadeiras, a agitar a figura nas mãos do homem, a sacudir a cabeleira da criança. E na estampa trêmula um homem vestido tinha o braço erguido a segurar uma longa espada. A criança agitava no ar o brinquedo. O outro falava do barão apalpando a imagem. Nos olhos do índio o espanto. O maracá rodopiando. O homem nu. A cabeça prestes a rolar. O maracá caindo. O barão assentando-se sobre a imagem de pau.


(*) Em língua cariri, dehêtsi significa acolá; dedé, perto e croné, nu.
Brasília, janeiro de 1979.
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