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quinta-feira, 17 de novembro de 2005

O laboratorista Paulo Nunes Batista (Nilto Maciel)


Chamego, o Urubu, de Paulo Nunes Batista, é produto de laboratório, de fazer artesanal. Comecemos pelas histórias que têm por pano de fundo o mundo místico, fantasioso, misterioso do candomblé, do espiritismo. São obras de quem pesquisou, esteve de corpo presente em terreiros de umbanda e outros sítios congêneres. 

Nordestino, Paulo Nunes não deixa de inventar ou reinventar histórias em que o linguajar da região Nordeste é marcadamente parte do entrecho. O linguajar goiano também se faz presente na obra do autor, que há alguns anos vive em Goiás. Em suma, a cultura popular é essencial nesta obra. Daí ser Paulo Nunes um herdeiro dos antigos contadores de histórias, sem deixar de ser um estilista.

Este livro é literatura da melhor qualidade. No entanto, quero destacar dois momentos dele. O primeiro intitula-se “Sempre”. É alegoria, conto alegórico, o que seja, de ímpar invenção. O outro dá título ao todo. Talvez a mais bem realizada página do conjunto. Uma obra-prima.

Paulo Nunes Batista é naturalista, neonaturalista, descritor de seres singulares. Seus perfis psicológicos e físicos são irretocáveis, como nas pinturas impressionistas.

E a poesia? Sim, há momentos de intensa poesia na prosa desse paraibano-goiano. Mesmo nas histórias mais macabras. Veja-se o início de “Monstro”, o ritmo, a cadência das frases. O mesmo se pode dizer do poético-filosófico “Homem ou o quê?”

Este livro é composto de histórias dos mais variados gêneros. “Naninha” é crônica que só cronistas muito sensíveis poderiam compor. Assim também “O último Natal de Mané Saia”. Pungentes. Há também relatos e capítulos de memórias. “O cinto” é escrito de quem habita o território dos espíritos. Depoimento, se quiserem.

Nem tudo em Chamego, o Urubu é água límpida. Ora, ninguém atinge a perfeição em criação artística antes de alcançar a eternidade. Não é demérito isso. Se este poeta nordestino tivesse escrito o mais belo livro em prosa da Literatura Brasileira, certamente não continuaria escrevendo. Pois há neste livro pelo menos duas narrativas muito espichadas, derramadas, excessivas: “Toinhão” e “Interrogatório & Cia Ltda”. Se sofressem alguns cortes, enxugamentos, o sabor de outras histórias estaria neles presente. E o laboratorista Paulo Nunes Batista daria por encerrada a sua missão no laboratório da palavra escrita.
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