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quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

O pássaro de luz de Guido Heleno (Nilto Maciel)


Pássaro de Luz, de Guido Heleno, traz apresentação de Cassiano Nunes e 36 poemas, cujos temas variados nos dão uma idéia de sua versatilidade. Ora Guido apresenta sua vocação telúrica, com poemas bucólicos, paisagens do interior de Goiás e Minas Gerais, ora fala de solidão e angústia, como no longo “Panorâmica desvairada”, em que, com algum humor, diz: “orar é preciso/ mas se possível, senhor, sem o peso do mundo sobre os ombros/ pois em meu dorso serpenteiam escolioses doloridas”.

A viga mestra onde se assenta a poesia de Guido Heleno é, sem dúvida, a dor do homem urbano. O cotidiano da cidade grande é pintado com a linguagem de uma realidade cinzenta: “todas as ruas são riscos de vida/ em cada esquina o encanto se desfaz”. O poema “diagnóstico da urbe” é exemplo típico dessa poesia feita com a matéria suja da civilização burguesa.

Essa tendência da poesia brasileira contemporânea – de retratar as mazelas sociais e, especificamente, urbanas – alcança em Guido Heleno pontos culminantes. A cidade enferma tem “ruas reumáticas”, “tumores em escavações”, sofre de “câncer”, tem respiração ofegante. Não poderia faltar, pois, o tema poluição. Por isso, o regresso do poeta ao campo, sua saudade dos pássaros em vôo, dos insetos em cântico, dos rios, das árvores, da própria vida campestre.

A morte, não como enigma ou objeto de especulações filosóficas, mas como fato corriqueiro do absurdo da civilização industrial, é tema dominante na poesia de Guido. “Passeio” e “ferroviária” colhem fragmentos semelhantes desse absurdo – a menina e sua boneca esmagadas pelo trem; a velha e seu cão esmigalhados pelo ônibus.

Nesse pousar sua visão sobre a podridão social, não poderia o poeta deixar de atingir o âmago mesmo da realidade. Nasce então o grito, o protesto, como em “América".

A formação dessa concepção poética do mundo em Guido Heleno poderia ser assim esboçada: o poeta postado à janela da vida, a determinar-se “passar um pano úmido nos olhos/ desembaçar o mundo”. A obscuridade não deixa ainda palpável a realidade das coisas: “lá fora/ se não me engano/ soam sobrenaturais trombetas”. Entre a paisagem bucólica perdida – ponto de partida para uma crítica da devastação da natureza e o estar na cidade, o início de uma fase de constatação: a rua, Brasília, sua História a confundir-se com a página mais suja da História do Brasil (“Honestino sorrindo para os amigos! sem pressentir ainda o ódio dos soberanos”), até o grito de protesto: “por que tantos punidos/ torturados e banidos?”
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