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segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Salomão Sousa: A lógica do pessimismo (Nilto Maciel)




O Susto de Viver e A Moenda dos Dias, de Salomão Sousa, foram reunidos num só volume. No primeiro, o poeta, impossibilitado de conter as palavras, a poesia, anuncia o seu drama: a cidade, que o chamou do campo (e esse tema estará mais presente em outros poemas), o assusta, o persegue, o amedronta, como se ele fosse um cão vadio. Não sabe se se quede como árvore em descampado açoitada pelo vento que passa – a vida a fluir – ou se vá, sem rumo, embora. Constata: “Sua sina, menino,/ é de árvore/ em descampado”. O silêncio fala ao seu redor, amedrontador. O poeta pára, enquanto tudo se movimenta, corre. O poeta se assusta da própria imobilidade: “Estendo os olhos/ e há o pedido de não ver”. A cidade (a vida) estende-se como um rumo, caminho sem fim. Mas cadê coragem de enfrentá-la? “A valentia/ conhecida de mim/ arrefeceu”. Mais do que perigoso, o existir ofende. É o medo de viver. O título esconde a palavra e a constatação mais comprometedora. No entanto, não sendo possível escamotear a alma no poema, a confissão sai clara: “Compromete/ olhar sobre os muros”. Do outro lado podem estar escondidos o fruto proibido, a serpente enroscada na árvore, Eva desnuda. Os terrores infantis, ainda recentes, não se apagam facilmente. Por mais que tente trair o próprio medo, ainda assim será fatal o susto. Amarra-se para segurar-se: “Teço a corda com a própria pele”. O corpo (o ser) serve de prisão, de degredo. O mundo é um perigo, abismo onde se precipitam os seres. É preciso fechar-se em si, caramujo. Qualquer impulso irracional leva à queda, como se nunca houvesse dado um passo. Todo passo será falso: “Atiro-me às escondidas/ e os charcos/ me atiçam as quedas”.

Na segunda parte – “Dados” – a mesma relação de forças: a pedra (o ser) que gira é atirada, sem destino. A vida é um jogo: o impossível esconde-se detrás das facetas do dado. O azar dorme nos esconsos do cubo. Em si mesmo o dado não fica, não se imobiliza: “A pedra/ atirada/ soa a queda”. É patente o sinal concreto da construção desses poemas, concretismo por metáforas: jogo-vida, pedra-ser.

O segundo livro, antes publicado separadamente. também se divide em duas partes. Numa – “Ladainha da Cidade Dura” – o poeta, de forma mais objetiva do que nos poemas já focalizados, individualiza a cidade, dá-lhe nomes: Ceilândia, Brasília. Ocorre uma inversão ótica: em vez do indivíduo perdido nos meandros da cidade, agora a humanidade e a cidade aparecem na pintura poética ampliadas, obscurecendo o indivíduo. O pintor sobe aos céus e de cima vê o todo, e não mais o indivíduo apenas. Ainda assim, o mesmo medo de abrir os olhos, olhar sobre os muros, correr, soltar-se: “Resisto à vontade/ de soltar fora os sapatos,/ de soltar fora os cachorros,/ de soltar fora as ruas.

Na segunda parte – “O Ser ao Ser”– o lado oposto dessa cidade de medo: o campo de onde proveio o menino assustado, em busca de si mesmo. Entretanto, apenas um reflexo do passado, porque são as ruas por onde passa que lhe despertam a necessidade de escrever. Nasce em seus ouvidos aquele silêncio antes visto nos outros. O silêncio das coisas é uma auréola protetora. Para onde o poeta for conduzirá consigo o silêncio.

A cronologia sentimental de Salomão Sousa obedece a uma lógica do pessimismo. O universo pode ser desigual no tempo e no espaço, porém o indivíduo é apenas um dado, “pedra atirada dentro do rio”. Se antes “entendia cada silêncio que estivesse por perto”, agora “é impossível passar ileso por qualquer despensa do vazio ou do silêncio”. Se antes conservava “um medo leve”, agora “o gume da tristeza não fende o medo”.

A linguagem pode mudar, porque mudam o tempo e o espaço, todavia ao personagem nenhum historiador poderá transfigurar. Passa o vento, não a arvore. Passam os dias, os dentes da moenda, não o homem triturado pela vida. Passam as nuvens, os pássaros e o rio, não o menino a quem o bicho-papão fez estremecer.

E finalmente: tudo passa, menos o homem e a sua poesia.
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