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sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

A tragestória de Getúlio (Nilto Maciel)



O bigodão do gordo se mexeu, quando pedi a primeira dose. Ao beber, percebi que ele desconfiava de mim. Seus olhos pareciam lâminas a cortar meus lábios. No entanto, eu precisava beber. Engolir o veneno, o fel. Minhas vísceras, frágeis vertentes por onde desaguavam metais derretidos. Não quis cuspir ao pé do balcão e corri para a porta. Cuspi sobre o lombo do cachorro que lambia o traseiro de outro. Tentei acender, apressado, um cigarro. Uma baforada de ar frio entrou pelas narinas, pela garganta, pelas olhos. Voltei e pedi mais bebida. E mais, mais, mais. 

— Acertei.

Ai! Estou caindo. Ai ai ai. Preciso me agarrar a esta parede lisa azul. O chão me arrasta, como correnteza. Tudo está caindo. Esta luz amarela parece o sol do meio-dia. Dói, feito areia nos olhos.

— Matei o safado.

Uma mesa? Um baú? Que cauda é esta crescendo e brilhando? Um animal estranho? Os livros estão dançando. Tela sem imagem. E aquela criança de orelhas enormes? Sofás de tantas cores! Devem ser macios demais para o sono de quem chega muito cansado.

— Meu Deus! Que fizeste, Rodolfo?!

A mulher grita, como se visse o diabo. Treme, chora. Agarra-se às costas do gordo corado alto que fala, gesticula e aponta o cano para a minha boca.

— Deve ter morrido.

Eles me pegaram, me bateram por muito tempo e me quebraram os dentes. Nunca fui a dentista. Os dentes apodreceram cedo e foram caindo, aos poucos. Como o avião que afundou na lagoa. Morreram todos e o povo fez festa. Eu não votei porque não pude. Não tinha documentos. Tirei a carteira de trabalho e saí à procura de emprego. Arranjei, mas nem precisava de carteira.

— Está vivo ainda.

Eles pensavam que eu já tivesse morrido. Bebi muito e dormi à porta do bar. Acordei só de cuecas. Rapazes dançavam, abraçados e sem camisa. Entrei na folia. Viva o Flamengo! Roubei uma camisa de listras pretas e vermelhas e fui embora.

— Estou querendo acabar de matar esse bicho.

O galo sangrava e não percebia as penas ensopadas do próprio sangue. Tive pena, mas sentia muita fome. Então decepei o pescoço ensangüentado com uma faca cega. Arranjei farinha com Seu João e assei o bicho.

— Chame a polícia, enquanto eu vigio.

Quando chegou, já era tarde. O criminoso já havia fugido e o pobre do Bira estava mortinho da silva. E bebemos mais ainda. Até a hora do enterro.

— Chame logo.

Não chamei. Ela não era minha mãe. Levei outra surra e fiquei todo ferido. O corpo doído, como se tivesse sido pisado por um elefante. Ah se eu fosse Tarzan! Saía pulando de galho em galho. Como a Chita. Tão inteligente! Já terá morrido?

— Ele já morreu?

Não sei. Fugi de casa no outro dia. Nunca mais ouvi falar dele. Deve ter morrido bêbado. Ou ainda deve estar no barraco com aquela égua e os meninos. Coitada de Lucinha! Naquele cabaré, bebendo, apanhando, passando fome. Dá até vontade de chorar ou morrer.

— Ouviu a sirena?

Madalena, se fosse mulher. Mas como é homem, será Getúlio. Que nome mais feio! Ora, o nome de um homem como esse não pode nunca ser feio. Estou prestando uma homenagem.

— Abra a porta.

O sol entra em meus olhos. Fechem a porta, não deixem essa bola de fogo invadir a casa.

— Ainda bem.

O mundo é quente e ruim. Como seria bom estar guardado em mamãe.

— Onde está o ladrão?

É um menino. Deus te dê muita saúde e felicidade.

A mãe está morrendo, doutor. Depressa, depressa!

— Parece que já morreu, Seu Delegado.
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