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quarta-feira, 11 de julho de 2007

A lágrima (Nilto Maciel)


















(Juego de niños - Goya)


Deitado de bruços, mãos no fuzil, Fernando circunvagou a vista pelo sítio. Corpos caídos aqui e ali. No entanto, o comandante caminhava e gritava: batalha vencida, hora de voltar às montanhas. Fernando ergueu-se e se pôs a andar no encalço do comandante e dos outros guerrilheiros. Deu alguns passos e por pouco não pisou no peito de um inimigo. Olhou para baixo. O homem ainda vivia. Daria o tiro de misericórdia? Ergueu o fuzil. "Não atirem após a batalha, a não ser em caso de extrema necessidade”.O soldado gemia, olhos semi-abertos. É você, Vicente? Quando meninos haviam jurado amizade eterna. Quando eu for grande vou ser médico. E você? Não, médico eu não quero ser. Não posso ver sangue. Besteira, Fernando. É bonito curar as pessoas. Corriam para lá e para cá, jogavam bola no meio da rua, riam à toa. Formavam times e, às vezes, jogavam em lados opostos. Quando se chocavam, caíam, tombavam, ajudavam-se, pediam desculpas. Mas também brigavam. Até por motivos fúteis. Intrigas de outros meninos. Estudavam na mesma escola, trocavam colas*. Não vamos mais brigar, não é? Os olhos de Vicente se apagavam em lenta agonia. O comandante e os guerrilheiros se afastavam às pressas. Atire. Quero morrer. Não agüento mais tanta dor. Fernando se abaixou. Vicente, você está me reconhecendo? Eu sou o Fernando. Uma cobra se arrastava a dois passos da cabeça do soldado. A vida antigamente parecia muito bonita. Guerras só no cinema e nos livros de História. Tudo muito distante, como se fosse apenas ficção. Grandes formigas pretas se afogavam em rios de sangue. Urubus sobrevoavam o sítio. Um dia vou ser médico, para salvar muitas vidas. Tenho medo de sangue. Não sei ainda, mas talvez vá ser engenheiro. Não, jogador de futebol. Chuta forte, Vicente. Nunca mais vamos brigar, não é? Nunca, eu juro. Vamos ser amigos para sempre. Inimigos, nunca. O comandante e os guerrilheiros haviam sumido no mato. As formigas tentavam se salvar do afogamento nos riachos vermelhos. Os urubus crocitavam, em algazarra. Os olhos de Vicente se abriram desmesuradamente e fitaram os de Fernando. Agora somos inimigos. Mate-me de vez. Fernando pôs o fuzil no chão. Uma lágrima custou a sair do fundo de seu olho. No entanto, saiu, resvalou por seu rosto e, lentamente, como se nunca fosse cair, se alojou no olho do moribundo. Adeus, amigo.
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