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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Retábulo (Ronaldo Monte)



Determinados eventos têm o poder de nos transformar de uma maneira irreversível. Não estou falando dos escândalos da paixão nem das agonias da morte, casos extremos e inevitáveis em nossa condição de viventes. Não me refiro tampouco aos fenômenos naturais, enchentes, furacões, tsunamis, nem aos desastres ambientais. Falo de acontecimentos mais sutis, que nos pegam de surpresa em certos momentos da vida. Pode ser um encontro com algum desconhecido, ou a revelação de uma qualidade nova em algum velho amigo. Você tem um colega de trabalho que vive uma vidinha de nada. De repente, ele senta num piano e toca uma sonata de Chopin. Eis um pequeno exemplo de espanto.

Existe outro tipo de acontecimento menos gratuito. É aquele que você vai procurar sem saber muito bem o que irá encontrar. Pode ser a releitura de um parágrafo de um livro que você já leu muitas vezes. Naquele exato momento, duas ou três linhas ganham um significado novo que você nunca imaginou que estivesse ali. Outras vezes é o impacto de uma música que ouvimos pela primeira vez. Pode ser também o detalhe de um quadro conhecido, mas que se mostra totalmente outro quando o vemos diretamente na parede de um museu.

Estou falando disso tudo, para chegar a uma experiência perturbadora a que me submeti no último domingo: Retábulo. O mais novo experimento cênico do Grupo de Teatro Piollin. O trabalho é uma tentativa de responder a um desafio fundamental para o teatro contemporâneo: construir, para o público de hoje, narrativas cênicas que possam, realmente, ultrapassar os limites do convencional. A resposta do Piollin foi dada a partir do texto rigoroso de Osman Lins para instaurar, nas palavras do diretor Luiz Carlos Vasconcelos, “uma cena também rigorosa, apoiada simultaneamente na poesia da palavra e do corpo em ação”.

Retábulo não é uma peça para se assistir. É uma experiência para se viver. Mergulhar com todos os sentidos e sair dela com todos os sentidos afetados pela novidade do acontecimento. E a partir daí, encontrar novos sentidos nas pequenas coisas do cotidiano.
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