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terça-feira, 28 de maio de 2013

Poesia de rododendro (Nilto Maciel)





Não me sobra tempo para dedicar uma crônica a cada livro recebido. Por isso, seleciono, de vez em quando, três ou mais (quase sempre, do mesmo gênero) e os comento conjuntamente. Hoje será assim também.

Os leitores mais amigos chasquearão: o danado dispõe de tempo até demais, pois aposentado é, passa os dias a ouvir música, assistir a filmes e bater pernas pelo shopping. Têm certa razão: faço tudo isso e ainda leio muito e rabisco letrinhas, nas horas vagas. E aí está a razão principal por que me falta tempo para outras atividades: consagro-me, sofregamente, a mim mesmo, sobretudo a desenhar frases. Chego a perder a noção do tempo, nas horas de prazer físico e mental proporcionado pelo ato (sexual) de escrever.

Dadas as devidas explicações públicas, deixo-me de lengalenga e passo aos três compêndios recebidos semana passada: Círculos – breve antologia (Brasília: Thesaurus, 2012)), de Antonio Miranda (poemas selecionados para apresentações durante o VI Festival Las Lenguas de América: Carlos Montemayor, Ciudad de Mexico, 2012), edição bilíngue: português/espanhol; Junto à lareira invisível (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2013), de Linhares Filho; e Lições de tempo/Lecciones de tiempo & Os movimentos de Cronos/Los movimientos de Cronos (Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2012), de Roberto Pontes, edição bilíngue: português/espanhol.

Aspecto notório em Antonio Miranda (maranhense de nascimento, brasiliense por diversas circunstâncias) é o da diversidade de temas abordados, obra após obra. E isto está bem percebido pelo crítico Eduardo García: “Cada uno de sus libros es una nueva aventura (...) Sus textos tienden a aglutinarse, dialogando entre si, hasta formar parte de una unidad orgânica más amplia”. Neste ora manuseado, o assunto principal talvez seja a própria literatura: metalinguagem, metapoesia. Veja-se isto: “Que seja com um machado. // Prefiro uma lâmina aguda / um simples martelo / num golpe de misericórdia. // Com palavras, não. /Elas ferem muito mais / penetram mais ainda / mais fundo” (...). Mais explícito ainda é “Metapoema”: “Tudo, tudo mesmo / já se disse em poesia / mas vale dizer de novo”.

A artesania de Roberto Pontes, que conheço desde a primeira coletânea (comentei Lições de espaço ainda nos anos 1970), tem a condensação da partícula originária do Universo, a chamada “partícula de Deus”. Porém, refiro-me apenas à forma, à construção do verso, aos elementos componentes da peça e ao léxico. Vejamos este primeiro trecho: “Foi uma invenção do sortilégio / exercido sobre os sais da natureza / e onde havia o pó / vingou a chama, / uma gota sumarenta / de energia. / Era o próprio tempo a gerar-se. / Assim se abre um botão de rododendro”. Não, não se trata apenas de forma. O menestrel cearense refere-se ao tempo, ao início do tempo, ao gênese ou aos gêneses.

Ao lado de outros guardadores de rebanhos, Linhares Filho, embora católico praticante, também se ocupa do mundo, do profano, do amor, do tempo, de sua (?) cidade (“Ode a Fortaleza”), da sua terra (o sertão, a pequena Lavras), de outros vates (“À grandeza de Castro Alves”). São inúmeras as cantigas de preito a trovadores de sua geração e mais novos. Alimenta-se também dos grandes dramas do mundo. Isto se vê em “À menina Malala, vítima do Talibã”. A miséria humana também faz parte de suas andanças pelo território do verso. Em “Meditação solidária” vai do assassinato de mendigos à morte por inanição e outras tragédias. Os mais críticos lembrarão, porém, a carnificina praticada sob a bênção papal ou dos cardeais e dos padres em geral. Muitas vezes, a mando deles (sem querer lembrar a Santa Inquisição, os bombardeios por tropas nazistas e fascistas a populações inteiras, Pio XII a beijar a suástica sob o manto cardinalício); outras vezes, por omissão (a prática rotineira de tortura e assassinato de presos políticos no Brasil e outros países dominados por ditaduras de extrema direita). Isso, no entanto, não é pecado grave, nem crime, pois são conhecidos os comportamentos reprováveis de grandes nomes das letras: Gustavo Corção e Gustavo Barroso, no Brasil; Ferdinand Celine e Ezra Pound, na Europa, para citarmos apenas quatro nomes.

Antonio Miranda não se perde em devaneios com as palavras. Entretanto, também sabe contar, sem se perder nos meandros da narração prosaica. Faz uso do léxico com a necessária economia, sem esbanjamentos: “Antes de nascer, ouvia e gravava, / sem entender: gritos, buzinas, canções. / Sem consciência do mundo, eu gravava”. Faz exame de consciência, autocrítica: “Memória física, em códigos que / eu não domino, que me domina. / Como Champolion, tento entender-me”.

Em Linhares Filho verifica-se essa mesma preocupação com o léxico, com o uso de rico vocabulário, sem ser extravagante nem extraído das estrelas. Tudo simples: “Quem transforma água em vinho, / peixes e pães multiplica, / quem os mortos ressuscita / e as ondas do mar domina, / tem sobre o corpo poder / de algo nele converter, / dar-se como Pão da Vida”. Ou tudo segundo a Bíblia, a tradição, a Igreja Romana. Aliás, é esse o ponto fraco do pintor de versos nascido em Lavras da Mangabeira: sua entrega poética aos ritos, aos mitos, aos detritos religiosos.

Já o hinário de Roberto Pontes nada tem de lirismo. Só porque não fala de amor, de sentimentos? Ele fala de origens (e tudo, inclusive o amor veio muito depois de tudo), do espaço mais amplo do Universo e do espaço mais restrito dos indivíduos: “As paredes do colo são de terra / Para o besouro / Que zumbe seu cansaço. / É o homem / Sugando o barro tátil / E sendo o fio no útero em festa”. Pode não parecer poético (também a arquitetura de João Cabral é chamada de seca, áspera e sem beleza).
            
          O bordado verbal de Antonio Miranda é multifacetado: vai do leque amplo de assuntos ao uso das mais variadas formas. Passeia tranquilamente pelo verso livre, modernista, e pelas formas mais antigas (é exemplar o soneto “Bestiário 3”) ou peças constituídas de quadras (“Barco à deriva”; “Sombras somadas”) e tercetos (“Antes de nascer, eu ouvia”; “Encurralado”). E, se assim conseguiu navegar pelos sete mares da fantasia, fê-lo por também conhecer os setenta mil arcanjos da lira. Veja-se a joia para Maiakóvski: “Vou ao meu funeral cantando”. Compôs também uma sequência de árias para Konstantinos Kaváfis, com a reprodução de um deles no volume ora visto.
            
         O cearense Linhares Filho também é hábil sonetista (vê-se isto à mancheia neste opúsculo), desde “No campo dos pastores” até “Amor: uma constante busca”. E não são sonetos de afogadilho, mal-amanhados, tortos, desses estampados em impressos cheios de graça. E são tantas as formas usadas (italiano, inglês, monostrófico, etc) que o leitor fica a comparar um a outro, na esperança de encontrar mais novidades. E encontra decassílabos perfeitos (“Altaneiro condor, gênio da raça, / teu voo arrebatou-me a juventude, / e a vibração do teu poetar me enlaça / ainda, conforme os versos teus estude”), alexandrinos, octossílabos, etc. Nada, porém de extravagâncias, libertinagens adolescentes, barbaridades, só para se mostrar rebelde.

A dicção de Roberto Pontes seria aquela proposta por Bandeira em “Estou farto do lirismo comedido”? Talvez o bardo recifense não se referisse a esse aspecto (a linguagem em si) do poema. Pois Roberto Pontes quis se manter bem distante dos temas propostos por clássicos, românticos, parnasianos, modernistas (o ser, o homem) e se (i)limitar ao espaço e ao tempo como categorias filosóficas. O resultado disso é uma alquimia densa, constituída de semantemas primordiais, vocábulos universais, de uma poesia-arte e, ao mesmo tempo, ciência da língua: pó, energia, tempo, vida, útero, célula, etc.

Por falta de oportunidade (ou será de capacidade?), não alongarei mais essa cantilena, apesar de a invenção dos três versistas merecer longo tempo de leitura e análise. Quem sou eu, porém, para compreender as lições de espaço e tempo de Roberto Pontes, o lirismo de Linhares Filho e a metalinguagem de Antonio Miranda? A base da planta é a mesma, porém cada azaleia tem o seu feitio; cada flor, a sua beleza; cada pétala, o seu perfume: rododendro. É o sortilégio da vida e da arte.

Fortaleza, 20 de maio de 2013.

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